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Abraão, o patriarca de nossa fé no livro de Gênesis é muitas vezes referido como o pai Abraão. Jesus nos ensinou a nos referir a Deus como nosso papai e a cada um de nós como irmãos e irmãs. Nos é dito que Jesus é o noivo da igreja. Em um sentido muito real, a Bíblia é o nosso álbum de família que documenta nossa história de fé. Pode não ter parentesco de sangue com as diferentes pessoas da Bíblia, mas ele é um parente deles através da fé. Como qualquer álbum, a Bíblia contém “fotos” que captam momentos importantes no tempo. Frequentemente voltamos ao nosso álbum de família bíblico para examinar as “fotos” onde a revelação de Deus é capturada. Em tempos difíceis, essas “fotos” bíblicas lembram quem somos e a quem pertencemos. Encontramos paz revendo essas “fotos” e nos tranquilizamos apesar de nossas dificuldades e tribulações do momento porque Deus papai está conosco.

Infelizmente, algumas das “fotos” do nosso álbum de família bíblico estão “borradas”, que levam a má interpretações, ou pior, a interpretações que machucam. Houve um tempo na história em que a escravidão foi aceita como a vontade de Deus. As pessoas apontavam para capítulos e versículos da Bíblia para provar que Deus ordenou a instituição da escravidão. Muitos dos que citavam a Bíblia em apoio à instituição da escravidão eram bons cristãos, mas eles foram ensinados a ler a Bíblia de tal maneira que causou a opressão de um grupo de pessoas com base na cor de sua pele. Hoje, alguns cristãos bem-intencionados leem a Bíblia de uma forma que oprime outras pessoas por causa de sua orientação sexual ou identidade de gênero. Mas aqui está a boa notícia: embora a Bíblia tenha sido usada historicamente como arma de opressão, ela sempre teve — e ainda mantém — as sementes de vida que podem levar à salvação e à libertação.

Nós cremos que a Bíblia é um livro de vida. No entanto, ao longo da história, ela também tem sido usada para oprimir e inclusive para justificar assassinatos. Aqueles que levam o texto bíblico a sério devem sempre ter cuidado para não confundir o que a Bíblia realmente diz e a interpretação da Bíblia que os seres humanos fazem diariamente. Os cristãos têm muitas ideias conflitantes sobre a Bíblia. Alguns creem que cada palavra foi ditada por Deus para as pessoas que escreveram tudo mecanicamente, como se fossem um “médium” em transe espiritual. Para outros, a Palavra de Deus está contida na Bíblia, mas nem toda a Bíblia é a Palavra de Deus. Nós nunca iremos concordar sobre a forma “correta” de interpretar as Escrituras, mas é responsabilidade de todos nós reconhecer que diferentes tradições, até mesmo aqueles que afirmam que a Bíblia é literalmente a Palavra de Deus, priorizam leituras específicas da Bíblia. Precisamos ter em mente esse contexto ampliado quando examinamos o que a Bíblia tem a dizer sobre a orientação sexual e a identidade de gênero, e lembrar que ao longo da história as pessoas de fé têm estado em desacordo com sua igreja e, ao mesmo tempo, reivindicam seu lugar legítimo nessa tradição.

Como a Bíblia é importante para nossas famílias, qualquer discussão sobre orientação sexual e identidade de gênero se torna uma discussão sobre revelação e/ou inspiração bíblica, especificamente como as interpretações das escrituras são interpretadas e formuladas. Devemos nos perguntar se a revelação de Deus pode ser mal compreendida ou mal interpretada pelos preconceitos existentes na cultura. Por exemplo, a Bíblia deveria ser usada para apoiar a poligamia, o genocídio ou a escravidão, porque a sociedade representada nela acreditava e praticava a poligamia, o genocídio ou a escravidão?

Quer se queira admitir ou não, todos nós lemos a Bíblia seletivamente. Todos nós abordamos a Bíblia com uma história específica de nossas vidas e lemos nossa própria história, juntamente com nossos preconceitos pessoais, no texto. Nossa cultura, nossa igreja e nossa família nos ensinaram a ler a Bíblia, e isso influencia muito a forma como interpretamos as Escrituras. Isso faz sentido. Como cristãos, consideramos a Bíblia como um guia moral para nossas vidas diárias, e isso é uma coisa boa. Quando sentimos que nossas vidas estão em perigo, muitos de nós vão ao Salmo 23.5 para encontrar coragem e força para percorrer o “vale da sombra da morte”. Quando tudo está sem esperança, voltamos nosso olhar para as boas novas da Ressurreição, de onde vem nossa salvação e libertação.

No entanto, se não percebermos o preconceito que nós ou nossas tradições religiosas trazem para o texto, então, sem saber, podemos causar um grande dano. Quando se trata de entender a orientação sexual e a identidade de gênero, muitas vezes aprendemos a ler a Bíblia de uma determinada maneira e, com base nessa leitura, criamos uma “verdade” sobre nossa sexualidade e nosso gênero. Então, esta “verdade” torna-se a base da doutrina da igreja. Infelizmente, essa “verdade” tende a nos forçar a nos conformarmos a um ideal artificial de gênero e sexualidade que fere a todos nós, especialmente lésbicas, gays, bissexuais ou transgêneros. Aqui está o perigo: ao lermos nossos preconceitos no texto, a verdade está corrompida.

O que afirmamos como verdades bíblicas são frequentemente os preconceitos da cultura dominante que estão disfarçados de Palavra de Deus. Devemos sempre evitar a interpretação incorreta das Escrituras como uma forma de promover nossos preconceitos. É um trabalho duro. Mas podemos começar levando a sério as perspectivas daqueles que foram marginalizados e nos perguntar se nossa interpretação perpetua a marginalização ou se oferece a possibilidade de libertação no amor de Deus. Hoje, como no tempo de Jesus na terra, temos aqueles que são marginalizados pelo texto. Aqueles que creem na Bíblia, devem ver as passagens que excluem membros da família LGBT da mesma forma como vemos as passagens que falam sobre o genocídio e o promovem (Êxodo 23:23), sobre a escravidão (Números 31:25-47), sobre guerras de conquista (Josué 1:10-18) e sobre limpeza étnica (Deuteronômio 19:1-2, 31:3-5). Além dessas passagens, existem dietas, sacrifícios e leis de pureza que os cristãos de hoje não praticam. Tais passagens não são mais consideradas autoritativas, nem deveriam ser.

E se aprendermos a ler a Bíblia através dos olhos daqueles afetados negativamente pelas atitudes discriminatórias predominantes? Ler a Bíblia a partir da perspectiva dos oprimidos pode livrá-la dos escrúpulos e preconceitos daqueles que tornaram a sua interpretação da Bíblia normativa e legítima para todos os demais. É extremamente importante entender o que a Bíblia diz sobre as vozes daqueles que raramente são ouvidos, especialmente mulheres, afrodescendentes, indígenas e, sim, pessoas LGBTI. Ao ler a Bíblia a partir da perspectiva da marginalização, surge uma oportunidade para entender melhor a mensagem das escrituras do ponto de vista não apenas daqueles que conhecem o significado de viver sob opressão, mas também saberemos o que significa viver sujeito à estruturas de poder.

Então, como devemos ler a Bíblia? Jesus Cristo disse: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (João 10:10). A missão de Cristo foi proporcionar abundância de vida, tanto temporal quanto eterna. É através dessa lente que aprendemos a ler e interpretar todo o texto bíblico. Em resumo, se uma interpretação bíblica impede um segmento da população de viver em abundância, ou pior, se produz morte, então ela é antievangélica. Quando uma leitura ou interpretação da Bíblia é contra os vulneráveis, então ela deve ser rejeitada, pois encoraja a opressão. Somente as interpretações que promovem a missão de Cristo de empoderar todos os segmentos da humanidade são biblicamente verdadeiras, pois elas oferecem vida abundante no aqui e agora.

PERGUNTAS E EXERCÍCIOS

  1. O que a Bíblia quer dizer quando parece apoiar o genocídio (Êxodo 23:23), a escravidão (Números 31:25-47), as guerras de conquista (Josué 1:10-18) e a limpeza étnica (Deuteronômio 19:1; 31:3-5)? Como nossas igrejas interpretam essas passagens? Como fazemos? Existem outras passagens difíceis que, se tomadas literalmente, podem causar mal? Se sim, quais são elas? Que outras passagens nos desafiam? O que você acha que essas passagens difíceis significam?
  2. Jesus nos dá um novo mandamento: amem uns aos outros como Deus nos amou. Como podemos amar aqueles que a sociedade nos ensinou que não são dignos de amor? Quais ações em favor dos oprimidos demonstram nosso amor? Como podemos aprender a amar os que nos discriminam? Se você é uma pessoa LGBTI, como você pode aprender a amar os que discriminam você? Se você é uma pessoa heterossexual, como você pode amar seus vizinhos LGBTI que são discriminados por causa de sua orientação?
  3. Se um membro da família disser que é LGBTI, você amaria menos essa pessoa? Como você a trataria? Como você quer que eles sejam tratados pela comunidade de sua igreja?

Traduzido e adaptado de A la Familia: una conversación sobre nuestras familias, la Biblia, la orientación sexual y la identidad de género, escrito pelo Rev. Dr. Miguel de la Torre, Rev. Dr. ignacio Castuera e Lisbeth Meléndez Rivera, produzido por Unid@s LGBT, Human Rights Campaign Foundation e National Gay and Lesbian Taks Force.

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