PERGUNTAS FREQUENTES

O Evangélicxs pela Diversidade é uma iniciativa composta pela diversidade não apenas em termos de orientação sexual e identidade de gênero. Participam pessoas LGBTI+ de diferentes denominações, igrejas e grupos evangélicos, com diferentes tradições teológicas e doutrinárias. Em meio a essa diversidade, o Evangélicxs se compreende como uma organização LGBTI+ evangélica afirmativa. 

São recorrentes em nossos encontros e interações presenciais, online, nas redes sociais, as questões abaixo. Buscamos responder a estas perguntas com uma linguagem o mais acessível possível para o público que nos procura.  

Sabemos que a diversidade LGBTI+ se estabelece para além dos debates em torno da homoafetividade e da homossexualidade, e a educação sobre diversidade e a visibilização e compreensão de todas as diversidades e suas nuances em nossa sigla é um valor caro ao Evangélicxs. Esta educação para a diversidade está diretamente vinculada ao nosso eixo de Formação, cujo processo se dá numa construção complexa em espaços construídos para essa finalidade.

Nossa maior preocupação nas respostas abaixo são as angústias atravessadas por questionamentos religiosos que tornam a {r}existência urgente e que tentam possibilitar uma convivência menos tensionada e opressiva. Por isso, nossa proposta abaixo é encontrar as pessoas nas suas questões mais urgentes e deixar a porta aberta para que, durante o processo de questionamento e caminhada, se possa evidenciar outras dimensões da nossa linda diversidade.

Nossa oração é que nossa compreensão e perspectiva sobre temas tão complexos possam responder a algumas de suas dúvidas e angústias mais prementes.

Como Deus vê a homoafetividade? Deus não criou homem e mulher?

A Bíblia fala de Deus como um ser criativo e na narrativa da criação, sua criatividade se expressa na diversidade de seres e espécies de animais e plantas criadas. A narrativa da criação dos seres humanos contém várias ideias importantes como a da procriação (crescei e multiplicai-vos) e a do cuidado e mordomia da natureza (governem a terra). Ao criar os seres humanos a principal ideia no texto era de que o ser humano não estivesse só, por isso a criação de outro ser, semelhante a ele, para prover companheirismo. O texto de Gênesis, portanto, quando se refere aos seres humanos, quer destacar a importância do companheirismo e da multiplicação dos descendentes

É fato que para haver reprodução é necessário destacar que Deus fez seres humanos com capacidades biológicas distintas em seus aparelhos reprodutores (sabemos também que a sociedade atribuiu a essas capacidades biológicas papéis de gênero que são considerados o masculino e feminino). Mas sabemos que a união entre dois seres humanos para criação de vínculos afetivos e companheirismo não está relacionada necessariamente a essa capacidade reprodutiva. Se fosse assim, casais heterossexuais que não podem ter filhos seriam condenados na Bíblia. Ou até mesmo casais que decidem não ter filhos, mesmo podendo tê-los. É preciso entender que crer e professar que o objetivo de Deus ao criar a humanidade é que “macho e fêmea” se unam e permaneçam unidos durante toda a vida para gerar prole como seu objetivo principal não é uma afirmação violenta apenas com casais homoafetivos e/ou transafetivos, mas uma violência com várias outras formas de família. 

Reduzir a beleza da relação de afeto entre dois seres (ainda que heterossexuais e cisgêneros) e todas as subjetividades das suas trajetórias como sujeitos independentes e como casal que se uniu para dizer que o objetivo era gerar prole é uma violência com a história dessas pessoas. Essa narrativa é problemática também com outros arranjos de família. Mulheres que decidem ser mãe solo, homens que decidem ser pais solo, casais que não tem prole gerada, casais que decidem adotar ao invés de gestar e gerar uma criança. A interpretação patriarcal e centrada na heteronormatividade dos textos de Gênesis ressoaram profundamente e por muitos séculos na sociedade judaica e, posteriormente, nas culturas cristianizadas.

A Bíblia é clara na condenação da “prática homo” como pecado?

Não há condenação clara da homossexualidade ou homoafetividade na Bíblia, no sentido de um relacionamento sexual e amoroso entre pessoas do mesmo sexo. Importante afirmar também a impossibilidade de ser mencionado nesses termos na Bíblia porque a palavra “homossexual” não existia até o século 19. A primeira tradução dos textos do Novo Testamento que atribuem a palavra “homossexual” ou “homossexualidade” para as palavras no original grego aparecem apenas em 1946. Não faz nem 80 anos que esses textos do Novo Testamento são lidos dessa forma. 

Em todas as passagens, e são apenas 6 passagens, a atividade sexual que se atribui a pessoas LGBTI+ é sempre mencionada no contexto de prostituição cultual, violência, luxúria ou idolatria. Entendemos que a maneira como esses textos foram traduzidos e a decisão das equipes de tradução de escolher as palavras “homossexuais passivos e ativos” e “homossexualidade” representa e fala menos das palavras e expressões hebraicas e gregas, que o próprio contexto de uma forma LGBTfóbica e estereotipada que se tem sobre as diversidades sexuais e de gênero.

O pecado de Sodoma foi a homossexualidade?

De acordo com o profeta Ezequiel (16.49), a iniquidade de Sodoma foi a relutância da cidade, por causa de seu orgulho e arrogância, em partilhar a sua riqueza com os pobres e marginalizados. Amós (4.1, 11) profetizou a destruição de Israel por seguir o exemplo de Sodoma de “oprimir os necessitados e esmagar os pobres.” Além disso, referindo-se a Israel como Sodoma e Gomorra, o profeta Isaías instou aos israelitas: “parem de fazer o mal. Aprendam a fazer o bem. Busquem justiça, censurem o opressor, sejam justos com os órfãos, defendam a viúva.” (Isaías 1.10-17).

Sempre que a Bíblia menciona Sodoma, a homossexualidade não aparece como a causa da destruição. O pecado de Sodoma e Gomorra, de acordo com a Palavra de Deus, é não ter feito justiça aos “órfãos e viúvas”, o eufemismo bíblico para os despossuídos. O primeiro a dizer que o pecado de Sodoma era a homossexualidade foi o filósofo judeu Filo de Alexandria (25AEC?-50EC?) e o historiador Flavio Josefo (37EC-100EC?).

O pecado de Sodoma, de acordo com a Bíblia, não se refere a um relacionamento amoroso consentido entre dois adultos do mesmo sexo. Em vez disso, refere-se à falta de vontade das pessoas de serem hospitaleiras com os estrangeiros. Pode ser por isso que Jesus, instruindo os seus discípulos que estavam prestes a embarcar em uma viagem missionária, diz que as cidades que lhes negarem a hospitalidade vão enfrentar um destino pior que Sodoma (Lucas 10.1-12). (Texto traduzido/adaptado de A la Familia: una conversación sobre nuestras familias, la Biblia, la orientación sexual y la identidad de género, Rev. Miguel de la Torre, Rev. Ignacio Castuera e Lisbeth Meléndez Rivera)

Em Levítico a homossexualidade não é considerada uma abominação?

Apenas dois versículos em toda a Bíblia hebraica (Antigo Testamento) tratam de maneira explícita da homossexualidade e se encontram no livro de Levítico, numa seção conhecida como Código de Santidade (Levítico 17 a 26). Quando a palavra hebraica “santidade” é utilizada, uma melhor tradução seria a palavra “separado”. Portanto, “Sejam santos (separados), porque eu, o SENHOR, o Deus de vocês, sou santo (separado) (Levítico 19.2). Os israelitas foram chamados para ser separados dos cananeus, que ocupavam anteriormente a mesma terra. Este código conclui: “Não façam como se faz na terra do Egito, onde vocês moraram, nem façam como se faz na terra de Canaã, para onde eu os estou levando. Não andem segundo os estatutos desses povos. Cumpram os meus juízos e guardem os meus estatutos, para andarem neles.” (Levítico 18.3-4). Para sobreviver e manter sua identidade étnica, o povo hebreu tomou posse da terra e tinha que se assegurar de que não adotaria os costumes dos povos que os rodeava.

Os que violaram Levítico 18.22 e 20.13 (concretamente o segundo) sofriam a morte. Se fôssemos ler a Bíblia literalmente, deveríamos matar todos os homens gays? Mas o mandamento não para com os homens gays. A Bíblia pede a morte dos adúlteros (Levítico 20.10), das noivas que na lua de mel se descubram não virgens (Deuteronômio 22.13-21), dos adolescentes rebeldes (Levítico 20.9) e dos blasfemos (Levítico 24:15).

Em geral, ignoramos passagens como a de matar os adolescentes que faltam com respeito — e devemos ignorar mesmo. Mas por que ignorar este versículo e não os que mencionam a homossexualidade? Colocando de lado esta questão, também temos que nos perguntar se estes dois versículos são realmente sobre homossexualidade. Como a palavra “homossexual” não existe na linguagem bíblica hebraica, a tradução direta é “não deitar-se com um homem como se fosse mulher”. Fazê-lo constitui um ato detestável, uma abominação. Outras abominações incluem o uso indevido do incenso (Números 16.39, 40); oferecer um animal defeituoso como sacrifício (Deuteronômio 17.1); comer animais imundos, como mariscos (Levítico 11.10), ou contato com seus cadáveres (Levítico 11.11) e carne de porco, junto com outros animais com unhas fendidas (Deuteronômio 14.4-8); voltar-se a casar com um ex-cônjuge (Deuteronômio 24.4); ou ter relações sexuais com uma mulher durante seu ciclo de sete dias de menstruação (Levítico 20.18-24; Ezequiel 18.6).

Por que é ritualmente impuro o “deitar-se com um homem como se fosse mulher”? A resposta se encontra no versículo anterior, especificamente em Levítico 18.21, que proíbe o sacrifício de crianças. Se tivéssemos que vincular estes dois versículos, um homem que se deita com um homem é uma abominação, já que se refere ao “sexo sagrado” que ocorria dentro da religião no mundo antigo, com uma classe especial de prostitutas que serviam a estas necessidades em muitos dos estabelecimentos religiosos. O deitar-se com um prostituto sagrado seria considerado uma abominação, já que segue as práticas ritualísticas de quem os hebreus tinham que se separar. (Texto traduzido/adaptado de A la Familia: una conversación sobre nuestras familias, la Biblia, la orientación sexual y la identidad de género, Rev. Miguel de la Torre, Rev. Ignacio Castuera e Lisbeth Meléndez Rivera)

No Novo Testamento, Paulo não fala abertamente da homossexualidade como algo condenável aos olhos de Deus? Como se explica Romanos 1?

Nesta passagem, Paulo está escrevendo sobre a idolatria, sobre quem troca a “glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal” (Romanos 1:23). Ele está preocupado com aqueles que participam da adoração não natural das coisas criadas na natureza, em vez da adoração natural de Deus evidente em toda a natureza. Este não é um texto sobre a homossexualidade, mas sobre a troca do que é natural pelo não natural. Se esta passagem for lida com um viés heterossexual, é fácil supor que o termo “não natural” é uma referência à homossexualidade.

O que Paulo diz é que há homens heterossexuais que trocam “relações naturais” para serem “inflamados de paixão uns pelos outros”. Em outras palavras, os homens estão sendo condenados a mudar sua natureza. Paulo se refere a homens heterossexuais que mudam sua natureza para práticas homossexuais — uma prática comum do tempo de Paulo, onde escravos heterossexuais e prostitutas eram forçados a atividades homossexuais.

Paulo critica aqueles que obrigam os heterossexuais a participar de atividades do mesmo sexo contra sua vontade. Se quisermos aplicar esse ensinamento hoje, poderíamos dizer que os homossexuais também não devem trocar sua natureza (orientação) pelas práticas heterossexuais.

Esta passagem da Bíblia também diz que as mulheres estavam “trocando suas relações naturais por outras, contrárias à natureza”. Esse é o único lugar em toda a Bíblia onde a lesbianidade é mencionada. Ou não? Por que se supõe que “práticas contrárias à natureza” neste caso se referem a mulheres que fazem sexo com o mesmo gênero? Fiel aos argumentos de Paulo contra a troca do que é natural pelo não natural, as práticas não naturais poderiam ser uma referência a mulheres que agiam de forma contrária às normas patriarcais da época? Ele poderia estar falando de mulheres que se recusam a ser passivas no lar? (Texto traduzido/adaptado de A la Familia: una conversación sobre nuestras familias, la Biblia, la orientación sexual y la identidad de género, Rev. Miguel de la Torre, Rev. Ignacio Castuera e Lisbeth Meléndez Rivera)

E as passagens que citam a homossexualidade na lista de pecados em I Coríntios 6.9-10 ou 1 Timóteo 1.10?

Nunca devemos nos esquecer que Paulo está escrevendo no contexto social greco-romano. Não fazemos justiça à Bíblia quando lemos as Escrituras com uma compreensão moderna da intimidade sexual comparada ao ethos cultural existente em seu próprio tempo. No mundo grego antigo, a pederastia — uma relação sexual entre adultos e crianças — era muitas vezes comum e praticada extensivamente como um tipo de ritual de iniciação masculina. Os costumes sexuais gregos influenciaram a cultura romana, com a ressalva de que as relações entre o mesmo sexo entre os romanos em geral se davam entre um amo e seu escravo. É a este mundo greco-romano que Paulo escreve suas cartas.

O grego que parece nestas passagens, que se traduz geralmente como “homossexual”, é arsenokoites (1 Coríntios também inclui a palavra grega malakos). Traduzindo estas palavras como “homossexual”, um termo que não existiu até o final do século dezenove, levou muitos à conclusão de que os homossexuais não herdarão o reino de Deus. Mas arsenokoites e malakos não se referem ao que hoje chamamos de uma relação íntima homossexual.

Malakos significa literalmente “suave”, um termo que se utiliza na literatura antiga para fazer referência a “crianças afeminadas”. Também poderia ser uma referência a uma relação de pederastia, onde um homem assume a posição passiva de uma mulher ou a “suave”.

Arsenokoites é mais difícil de traduzir porque o termo parece ter sido cunhado por Paulo, e não aparece em outras literaturas antigas nem é utilizado por autores posteriores. Arsenokoites denota o papel passivo adotado pela prostituição masculina. Se levamos em consideração que havia mais de mil prostitutas e prostitutos que trabalhavam em Corinto no templo de Afrodite e que a prostituição masculina se praticava amplamente na Grécia, 1 Coríntios e 1 Timóteo poderiam estar se referindo a estes prostitutos, concretamente os prostitutos masculinos que ainda eram crianças?

O que estas passagens bíblicas condenam, portanto, é a pedofilia e a prostituição masculina (comparada à prostituição feminina que parece ser dada como óbvia), não uma relação de amor entre homens.

Causamos dano ao texto bíblico se não somos capazes de entender que o contexto histórico em que foi escrito é muito diferente do nosso. Ao ler esta passagem, entre outras, devemos nos manter em sintonia com as diferentes atitudes sobre as mulheres e sobre o comportamento social que se projetam nelas. Não se discute nesta passagem o poder do amor entre duas pessoas e o vínculo que se estabelece na base desse amor. Em nenhuma parte da Bíblia encontramos exemplos de repúdio a relações amorosas. (Texto traduzido/adaptado de A la Familia: una conversación sobre nuestras familias, la Biblia, la orientación sexual y la identidad de género, Rev. Miguel de la Torre, Rev. Ignacio Castuera e Lisbeth Meléndez Rivera)

Rever o que a Bíblia diz sobre o tema da homossexualidade não desrespeita a visão central do princípio da autoridade da Bíblia, tão caro para o cristianismo?

Como devemos ler a Bíblia? Jesus Cristo disse: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (João 10:10). A missão de Cristo foi proporcionar abundância de vida, tanto temporal quanto eterna. É através dessa lente que aprendemos a ler e interpretar todo o texto bíblico. Em resumo, se uma interpretação bíblica impede um segmento da população de viver em abundância, ou pior, se produz morte, então ela é antievangélica. Quando uma leitura ou interpretação da Bíblia é contra os vulneráveis, então ela deve ser rejeitada, pois encoraja a opressão. Somente as interpretações que promovem a missão de Cristo de empoderar todos os segmentos da humanidade são biblicamente verdadeiras, pois elas oferecem vida abundante no aqui e agora.

Houve um tempo na história em que a escravidão foi aceita como a vontade de Deus. As pessoas apontavam para capítulos e versículos da Bíblia para provar que Deus ordenou a instituição da escravidão. Muitos dos que citavam a Bíblia em apoio à instituição da escravidão eram bons cristãos, mas eles foram ensinados a ler a Bíblia de tal maneira que causou a opressão de um grupo de pessoas com base na cor de sua pele. Hoje, alguns cristãos bem-intencionados leem a Bíblia de uma forma que oprime outras pessoas por causa de sua orientação sexual ou identidade de gênero. Mas aqui está a boa notícia: embora a Bíblia tenha sido usada historicamente como arma de opressão, ela sempre teve — e ainda mantém — as sementes de vida que podem levar à salvação e à libertação.

Aqueles que levam o texto bíblico a sério devem sempre ter cuidado para não confundir o que a Bíblia realmente diz e a interpretação da Bíblia que os seres humanos fazem diariamente. Os cristãos têm muitas ideias conflitantes sobre a Bíblia. Alguns creem que cada palavra foi ditada por Deus para as pessoas que escreveram tudo mecanicamente, como se fossem um “médium” em transe espiritual. Para outros, a Palavra de Deus está contida na Bíblia, mas nem toda a Bíblia é a Palavra de Deus. Nós nunca iremos concordar sobre a forma “correta” de interpretar as Escrituras, mas é responsabilidade de todos nós reconhecer que diferentes tradições, até mesmo aqueles que afirmam que a Bíblia é literalmente a Palavra de Deus, priorizam leituras específicas da Bíblia. Precisamos ter em mente esse contexto ampliado quando examinamos o que a Bíblia tem a dizer sobre a orientação sexual e a identidade de gênero, e lembrar que ao longo da história as pessoas de fé têm estado em desacordo com sua igreja e, ao mesmo tempo, reivindicam seu lugar legítimo nessa tradição.

Quando se trata de entender a orientação sexual e a identidade de gênero, muitas vezes aprendemos a ler a Bíblia de uma determinada maneira e, com base nessa leitura, criamos uma “verdade” sobre nossa sexualidade e nosso gênero. Então, esta “verdade” torna-se a base da doutrina da igreja. Infelizmente, essa “verdade” tende a nos forçar a nos conformarmos a um ideal artificial de gênero e sexualidade que fere a todos nós, especialmente lésbicas, gays, bissexuais ou transgêneros. Aqui está o perigo: ao lermos nossos preconceitos no texto, a verdade está corrompida.

O que afirmamos como verdades bíblicas são frequentemente os preconceitos da cultura dominante que estão disfarçados de Palavra de Deus. Devemos sempre evitar a interpretação incorreta das Escrituras como uma forma de promover nossos preconceitos. É um trabalho duro. Mas podemos começar levando a sério as perspectivas daqueles que foram marginalizados e nos perguntar se nossa interpretação perpetua a marginalização ou se oferece a possibilidade de libertação no amor de Deus. Hoje, como no tempo de Jesus na terra, temos aqueles que são marginalizados pelo texto. Aqueles que creem na Bíblia, devem ver as passagens que excluem membros da família LGBTI+ da mesma forma como vemos as passagens que falam sobre o genocídio e o promovem (Êxodo 23:23), sobre a escravidão (Números 31:25-47), sobre guerras de conquista (Josué 1:10-18) e sobre limpeza étnica (Deuteronômio 19:1-2, 31:3-5). Além dessas passagens, existem dietas, sacrifícios e leis de pureza que os cristãos de hoje não praticam. Tais passagens não são mais consideradas autoritativas, nem deveriam ser.

Ler a Bíblia a partir da perspectiva dos oprimidos pode livrá-la dos escrúpulos e preconceitos daqueles que tornaram a sua interpretação da Bíblia normativa e legítima para todos os demais. É extremamente importante entender o que a Bíblia diz sobre as vozes daqueles que raramente são ouvidos, especialmente mulheres, afrodescendentes, indígenas e, sim, pessoas LGBTI+. Ao ler a Bíblia a partir da perspectiva da marginalização, surge uma oportunidade para entender melhor a mensagem das escrituras do ponto de vista não apenas daqueles que conhecem o significado de viver sob opressão, mas também saberemos o que significa viver sujeito às estruturas de poder. (Texto traduzido/adaptado de A la Familia: una conversación sobre nuestras familias, la Biblia, la orientación sexual y la identidad de género, Rev. Miguel de la Torre, Rev. Ignacio Castuera e Lisbeth Meléndez Rivera)

Há exemplos de casais homoafetivos na Bíblia?

Na verdade, algumas passagens podem sim ser compreendidas como um tratamento positivo sobre a homoafetividade, como no caso de Davi e Jônatas. A forma como o texto narra o vínculo dos dois, mencionando que eles se amaram como às suas próprias almas e que as almas se ligaram (1 Samuel 18:1, ARC) abre possibilidades para entender que esse vínculo de “amizade” tinha profundidades afetivas. É importante lembrar também que quando Jônatas morreu, Davi usa uma expressão muito específica do Antigo Testamento, “o meu amor por você é maior do que”, acompanhando essa expressão por “o amor das mulheres” (2 Samuel 1:26). Essa expressão utilizada por Davi é encontrada também quando Elcana se declara para Ana, que era estéril e ele diz “meu amor por você é maior do que” acompanhando a expressão por “dez filhos” (1 Samuel 1:8). Repare que, no caso de Ana, por se tratar de uma mulher até então estéril, Elcana, seu marido, utiliza como comparativo o que lhe parecia ser o bem mais precioso, que era ter filhos. 

No caso de Davi, a expressão acompanha um comparativo que é relativo a uma das características mais marcantes na história do Rei, que é o fato dele ter a seu dispor e se envolver com várias mulheres. Atentamos aqui para o fato de que esses indícios são trazidos para nossa conversa como suspeitas e não como certezas. O que sabemos é que o ambiente cultural dos tempos bíblicos era patriarcal e machista e que não seria um processo natural a escrita que evidenciasse uma relação homoafetiva entre eles, ainda mais sabendo que Davi era um rei.

Poderíamos mencionar aqui outros textos possíveis, como a passagem no Novo Testamento em que o centurião romano procura Jesus para pedir a cura de um servo por quem ele tem muito afeto (Mateus 8:5-13, Lucas 7:1-10), mas a essência dessa pergunta sobre saber se “há homossexuais na Bíblia” tem a ver com tentar se perceber reconhecido por Deus e é nesse sentido que precisa ir nossa reflexão.

Alguns biblistas e teólogos tradicionalistas argumentam que estes indícios não são suficientes para afirmarmos que Davi e Jônatas eram um casal homoafetivo? Ou que o centurião romano e seu servo tivessem uma relação homoafetiva. Mas também poderíamos usar esse mesmo argumento para doutrinas bem estabelecidas, sem indícios explícitos na Bíblia como a doutrina do pedobatismo, em que não encontramos nenhuma ocorrência no Cânon bíblico que referencie de forma concreta a prática do batismo de crianças. Entretanto, respeitamos a tradição de quem compreende biblicamente essa forma de pensar sua teologia de salvação e da aliança. Do mesmo modo, a doutrina pentecostal do “falar em línguas” como evidência do batismo no Espírito Santo. Os acontecimentos na igreja de Atos sobre a descida do Espírito e as menções de Paulo sobre a língua dos anjos seriam indícios suficientes para se justificar a experiência do dom de línguas tal qual ocorre nas igrejas pentecostais contemporâneas? Ainda assim, não negamos a legitimidade da doutrina pentecostal do Batismo com o Espírito Santo e a experiência de fé de quem a vive.

A interpretação do texto bíblico a partir de indícios fragmentários é algo que sempre esteve presente na história da igreja e que moldou uma série de doutrinas que hoje geram a incrível diversidade de denominações que temos no mundo e também no Brasil. Nosso objetivo é, a partir do que teólogas feministas chamam de a “hermenêutica da suspeita”, propor que há possibilidades para a diversidade de interpretação e que há diferentes formas de se apropriar do texto bíblico.

Vale lembrar que o conceito de homossexualidade como temos hoje não se refere ao que era vivido na época dos relatos bíblicos, o que torna difícil dizer enfaticamente que encontraremos textos afirmativos da diversidade sexual e de gênero na Bíblia. Há uma invisibilização total das relações homoafetivas no texto bíblico, o que também ocorre com outros grupos sociais e étnicos. No entanto, enquanto grupos étnicos eram invisibilizados por uma falsa ideia de “pureza” do povo israelita, as pessoas LGBTI+ eram invisibilizadas por serem consideradas “abominações” ou não terem reconhecidas suas existências.

Mais importante do que se ver reconhecido na Bíblia é se ver reconhecido em Cristo, que é a Palavra de Deus, o verbo encarnado! Ao olharmos para Jesus, aprendemos que toda lei, toda letra, toda escrita precisa ser instrumento de promoção de uma vida justa, digna e em abundância.

MITO 1: As sexualidades e identidades das pessoas LGBTI+ existem como resultado de abuso que sofreram.

Fato: Nenhum estudo cientificamente sólido vinculou de modo definitivo a orientação sexual ou a identidade de gênero com o modelo de comportamento dos pais ou com o abuso sexual na infância.

Os defensores da “teologia da cura gay” e das terapias de reversão sexual costumam citar argumentos há muito refutados que vinculam as pessoas LGBTI+ a experiências de abuso infantil. As vítimas de abuso, entre as quais se encontram algumas pessoas LGBTI+, devem ser ouvidas, não usadas como uma arma.

Esses tipos de afirmação são abusivos.

MITO 2: O “estilo de vida gay" é um estilo de vida perigoso.

Fato: Ser LGBTI+ é tão saudável quanto ser cis-heterossexual.

Essa linguagem há muito refutada é usada por defensores do movimento de “cura gay” para afirmar implicitamente que viver como uma pessoa LGBTI+ é inerentemente perigoso ou autodestrutivo. Mas a questão é que são a estigmatização social e o preconceito que na verdade contribuem para provocar problemas de saúde na população LGBTI+, incluindo o sofrimento emocional e psicológico e mecanismos de defesa que são danosos.

Os proponentes da teologia cis-heteronormativa da “cura gay” preferem apagar a vida de pessoas LGBTI+ cujas experiências testemunham a bondade e a beleza inerentes de suas sexualidades, identidades e formas de expressão.

Sabemos que é a teologia cis-heteronormativa da “cura gay” que é realmente perigosa.

MITO 3: Os membros da comunidade LGBTI+ têm mais probabilidade de abusar sexualmente de crianças.

Fato: Não há evidências científicas para isso.

Essa tática hedionda de promover o medo tem sido usada como arma contra a comunidade LGBTI+ por décadas e é simplesmente falsa. Muitos em nossa comunidade experimentaram o resultado desse preconceito internalizado. Familiares já disseram a alguns para não ficarem sozinhos com qualquer criança simplesmente por causa dessa ideia obsoleta e problemática.

Isso também pode acontecer nas igrejas. Quando se voluntariam para os ministérios de jovens, adolescentes e crianças nas igrejas, às vezes pessoas LGBTI+ são removidas de seus cargos e são informadas de que outras funções ou ministérios seriam “mais adequados”.

Essa crença equivocada não prejudica apenas pessoas LGBTI+ adultas, ela prejudica também as crianças, ao instilar um complexo de vergonha, medo e julgamento. Chega dessa correlação tóxica entre pessoas LGBTI+ e abuso infantil.

MITO 4: Terapia de reversão ou reparadora e outras abordagens de "cura gay" são efetivas.

Fato: As terapias de reversão sexual são comprovadamente ineficazes e perigosas, causando danos significativos a pessoas LGBTI+.

A Associação Americana de Psiquiatria concluiu que “não existe nenhuma evidência confiável de que qualquer intervenção de saúde mental pode mudar a orientação sexual de forma confiável e segura”. Isso não é mais motivo de debate ou controvérsia.

Embora as terapias de reversão ou reparadoras tenham sido em muitos casos deixadas de lado no vernáculo cristão convencional, a premissa ideológica permanece intacta. Várias igrejas propagam ideologias cis-heteronormativas da “cura gay” usando as mesmas ideias com plataformas reformuladas. Aceitação e afirmação são essenciais para a saúde e o bem-estar dos jovens LGBTI+. As terapias de reversão ou reparadoras são absolutamente destrutivas.

Quando confrontados com a rejeição familiar, a Human Rights Campaign relata que os jovens LGBTI+ tem:

  • 8x mais probabilidade de ter tentado suicídio.
  • 6x mais probabilidade de relatar níveis altos de depressão.
  • 3x mais probabilidade de usar drogas ilícitas.
  • 3x mais probabilidade de estar em alto risco de contrair HIV e ISTs.

Qualquer tentativa de “mudar” as pessoas LGBTI+ é profundamente perigosa e acreditamos que essas práticas devem ser banidas. O Espírito Santo nos chama à empatia, equidade e inclusão. Essas formas de abuso que são conclusivamente ineficazes estão em oposição ao amor de Deus.

MITO 5: Pessoas LGBTI+ tiveram problemas com seus pais na infância.

Fato: Nenhum estudo cientificamente sólido vinculou de maneira definitiva a orientação ou identidade sexual com o papel desempenhado pelos pais ou o abuso sexual na infância.

Historicamente, alegar que pessoas LGBTI+ careciam de alguma forma adequada de afeto ou de um “modelo de gênero” por parte dos pais tem sido uma afirmação para declarar a possibilidade de “mudança”, levando ao uso de terapias de reversão ou reparadoras que já prejudicaram tantas pessoas LGBTI+.

Isso é perigoso e vai contra a ciência.

Crianças LGBTI+ devem ser amadas e celebradas por suas identidades e relacionamentos, afirmando-se seu lugar na família de Deus como pessoas amadas.

MITO 6: Você não pode ser uma pessoa LGBTI+ evangélica.

Fato: Você pode ser uma pessoa LGBTI+ evangélica.

Não são identidades mutuamente exclusivas. A comunidade LGBTI+ é composta por milhares de pessoas LGBTI + que seguem a Cristo, crescendo e se desenvolvendo em suas sexualidades e identidades.

A experiência da presença de Deus em nossas vidas demonstra que somos acolhides por Deus e Ele celebra quem somos, quem amamos e como nos expressamos. Em vez de tentar mudar ou abandonar aspectos tão fundamentais da nossa humanidade, devemos nos apoiar neles com coragem.

Para muitos de nós, essa jornada nos custou ou tem nos custado mais do que jamais imaginamos. Não é “a saída mais fácil” – muitos de nós oramos, lamentamos, lutamos e estudamos, buscando a reconciliação.

Mantemos uma visão elevada das Escrituras, lutando com o texto e nos recusando a jogá-lo fora. Nossa sexualidade e identidade de gênero estão perfeitamente integradas à nossa fé e podem ser integradas para você também.